Dissertação de Mestrado: Violência doméstica e de gênero: perfil sociodemográfico e psicossocial de mulheres abrigadas

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Documento: Dissertação de Mestrado
Autor: Prates, Paula Licursi (Catálogo USP)
Nome completo: Paula Licursi Prates
Unidade da USP: Faculdade de Saúde Pública
Área do Conhecimento: Saúde Materno Infantil
Data de Defesa: 2007-10-22
Imprenta: São Paulo, 2007
Orientador: Alvarenga, Augusta Thereza de (Catálogo USP)
Banca examinadora:
Alvarenga, Augusta Thereza de (Presidente)
Diniz, Carmen Simone Grilo
Villela, Wilza Vieira
Título em português: Violência doméstica e de gênero: perfil sociodemográfico e psicossocial de mulheres abrigadas
Palavras-chave em português:
Aspectos psicossociais
Aspectos sociodemográficos
Casa abrigo
Mulheres abrigadas
relações de gênero
violência doméstica
Resumo em português
Introdução: A violência contra a mulher tem sido considerada uma violação dos direitos humanos e um importante problema de saúde pública, tanto no que se refere aos cuidados, quanto com as relações de gênero que permeiam o fenômeno. Após este reconhecimento, serviços de atendimento às mulheres em situação de violência foram criados no âmbito das políticas públicas, entre eles os abrigos para mulheres que sofreram violência doméstica e se encontram em risco. Objetivo: Descrever e analisar o perfil sociodemográfico e psicossocial de usuárias de um destes abrigos da cidade de São Paulo. Método: Estudo quantiqualitativo realizado por meio de consulta aos prontuários da instituição. Foram coletados dados de natureza sociodemográfica, de violência, de saúde e aspectos do abrigamento de 72 mulheres atendidas no período de 2001 a 2005. Resultados: A violência perpassa todas as faixas de idade (17 a 46 anos) e tempos de união. A predominância de escolaridade está no ensino fundamental. 66,7% das mulheres mantinha relacionamentos estáveis, o que aponta para a maior incidência da violência contra a mulher no espaço doméstico e conjugal. 40,3% das mulheres eram donas de casa quando entraram no abrigo. Os tipos de violência mais relatados foram a física, a psicológica e a sexual. 86,1% das mulheres recebeu acompanhamento jurídico, dos quais 43,5% eram processos criminais, 5% familiares e 46,5% ambos. A maioria dos tratamentos de saúde foi de natureza psicológica. Após o abrigamento, 51,4% das mulheres iniciaram vida nova e/ou retornaram para família e 27,8% retornou para o companheiro. As mulheres que iniciaram vida nova apresentaram relacionamento interpessoal adequado, adesão à proposta do abrigo e condições para o desligamento. As mulheres que retornaram para os parceiros, na maioria não aderiram à proposta do abrigo e não apresentavam condições para o desligamento. Os motivos para o retorno parecem estar relacionados a uma concepção de feminilidade que marca a subjetividade das mulheres. Considerações Finais: Os dados apontam para a complexidade da violência e sugerem a existência de condições de diferentes ordens, envolvidas na definição do destino da abrigada. A realização de acompanhamento pós-abrigamento, de formação e de supervisão para as equipes é fundamental neste tipo de serviço. É necessário ainda que o abrigo encontre-se inserido numa política pública de assistência integral à mulher para que promova autonomia.
Tese completa para download aqui

Tese de Doutorado: A pena que vale a pena: alcances e limites de grupos reflexivos para homens autores de violência contra a mulher

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Documento: Tese de Doutorado
Autor: Prates, Paula Licursi (Catálogo USP)
Nome completo: Paula Licursi Prates
Unidade da USP: Faculdade de Saúde Pública
Área do Conhecimento: Saúde, Ciclos de Vida e Sociedade
Data de Defesa: 2013-05-15
Imprenta: São Paulo, 2013
Orientador: Alvarenga, Augusta Thereza de (Catálogo USP)
Banca examinadora:
Alvarenga, Augusta Thereza de (Presidente)
Adorno, Rubens de Camargo Ferreira
Blay, Eva Alterman
Falcão, Marcia Thereza Couto
Pasinato, Wânia
Título em português: A pena que vale a pena: alcances e limites de grupos reflexivos para homens autores de violência contra a mulher
Palavras-chave em português:
Gênero
Grupos Reflexivos
Homens Autores de Violência
Lei Maria da Penha
Masculinidades
Violência Contra a Mulher
Resumo em português
Introdução: O estudo das masculinidades e suas relações com a ocorrência da violência contra a mulher são decorrentes dos estudos de gênero. Para enfrentar o problema e incorporando esta tendência, a Lei Maria da Penha recomenda o encaminhamento de homens autores de violência contra mulher a serviços específicos, sendo o grupo reflexivo uma das possibilidades de intervenção. Objetivos: Caracterizar o perfil de homens participantes do grupo reflexivo; descrever como a dinâmica e os conteúdos veiculados no grupo mobilizam a reflexão; identificar que aspectos das falas dos sujeitos são indicadores de novas posturas e ressignificações das relações; analisar alcances e limites de grupos reflexivos como estratégia de enfrentamento à violência contra as mulheres. Método: Pesquisa qualitativa, do tipo estudo de caso, centrada na análise de um grupo composto por homens autores de violência contra a mulher, encaminhados pela justiça para cumprimento de medida judicial. Os dados sociodemográficos e criminais dos homens foram coletados em formulários e boletins de ocorrência. As falas dos sujeitos foram obtidas através de gravação dos grupos e de entrevistas individuais. As falas foram transcritas e interpretadas por meio da análise temática e discursiva, bem como à luz da literatura sobre gênero, violência e masculinidades. Os grupos foram conduzidos por profissionais vinculados a uma ONG, em parceria com o 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar de SP. Resultados e discussão: Os homens, inicialmente, sentem-se vitimizados e injustiçados diante da medida judicial de participação no grupo, não se identificam como autores de violência, apresentam concepções tradicionais do padrão de masculinidade hegemônica. No decorrer do processo, o acolhimento, as intervenções dos facilitadores e a vinculação dos homens ao grupo possibilitaram a ampliação de suas visões de mundo, de modo que as questões relacionadas ao uso da violência de gênero, masculinidades, direitos das mulheres e relacionamentos fossem flexibilizadas e ressignificadas. A maioria referiu adoção de novas posturas e atitudes frente a situações de conflito, procurando evitar o uso de violência em seus relacionamentos. Ao término da participação o grupo é percebido, pela maioria, como espaço que traz contribuições. Considerações Finais: A análise demonstrou que a estratégia de grupos reflexivos para homens autores de violência contra a mulher representa uma iniciativa promissora, a ser utilizada nos serviços de responsabilização para os agressores. Além disso, é importante que tais serviços sejam implantados como parte de uma política pública, vinculada à justiça e integrada à rede de serviços. A consolidação desta política pode ser entendida como um avanço na implementação da Lei Maria da Penha e no enfrentamento à violência contra a mulher
Tese completa para download aqui

Nexo Jornal: Como mulheres estão buscando tratamento médico de forma mais política

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Não basta atender pelo convênio médico. Mulheres estão buscando ginecologistas que respeitem diferentes orientações sexuais, façam parto humanizado, defendam o uso de coletor menstrual (o copinho) e até respondam por Whatsapp em caso de emergência.

Um grupo tem compartilhado em círculos do Facebook e e-mail uma planilha virtual e colaborativa justamente sobre essa busca. O “Guia de Recomendação de Ginecologistas”, como é chamado, traz sugestões, feitas por pacientes, de médicos em todos os Estados do país. Para acessá-lo, é necessário receber de alguma participante o convite para o documento.

A tabela enumera nomes de ginecologistas, telefone, endereço e observações sobre o atendimento, feitas por quem já realizou a consulta com o profissional. Entre os comentários, está “sem julgamentos”, “nunca falou sobre idade para ter filhos” e “contra o uso indiscriminado da pílula”.

A dificuldade em encontrar médicos atenciosos é ainda expressa em observações como “explica tudo didaticamente” e “embora seja homem, eu achei ele bem respeitoso e cuidadoso”.

Continue lendo em: Nexo Jornal

Hypeness: Guia colaborativo ajuda a encontrar ginecologistas naturalistas, feministas e gay friendly

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hype

image2Infelizmente, muitas mulheres já passaram, ao menos uma vez na vida por uma experiência desagradável ao ir ao ginecologista. Os motivos são diversos: conservadorismo, machismo, homofobia etc. Quando essas pessoas, descontentes com os péssimos serviços prestados, se unem, coisas boas podem surgir, como um guia médico colaborativo.

Foi divulgado via Facebook uma planilha de contatos de ginecologistas pelo Brasil que atendem desde necessidades específicas, como para pacientes que desejam se tratar através de métodos naturais/alternativos, como profissionais feministas e gay friendly. O guia também conta com espaço para recomendações e observações sobre os profissionais.

Continue lendo em:  Hypeness

A Pública: O agressor dorme no homem comum

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Em silêncio, espero a chegada do grupo junto dos psicólogos Tales Furtado Mistura e José Luiz Querido. Na salinha de cor creme, quase só cabem a mesa, as cadeiras, um quadro branco e uma estante. “Acho que hoje não vai ter muita gente não”, eles comentam enquanto a chuva caía naquela segunda-feira estranhamente fria para o começo de ano em São Paulo.

Esse seria o primeiro de três encontros de grupos reflexivos para homens enquadrados na Lei Maria da Penha que eu pude presenciar. Eles se reúnem toda semana na sede do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, um casarão vermelho situado numa rua pacata próxima ao largo da Batata, zona oeste de São Paulo. Uma equipe de psicólogos do coletivo oferece esse serviço de forma voluntária, e os encontros são gratuitos.

A casa do coletivo é o único espaço que acolhe grupos desse tipo na capital paulista. O outro espaço que sediava encontros como esse era a Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo (Acadepol), mas, segundo a Pública apurou, o curso está suspenso. Os relatos de quem foi a esse grupo dão conta de que a coisa andava mais à base da ameaça do que como uma reflexão conjunta legítima, como acontece na casa.

Os que participam dos grupos são homens enquadrados legalmente como agressores (não necessariamente culpados), para quem foi determinado, conforme o artigo 45 da Lei Maria da Penha, o “comparecimento obrigatório a programas de recuperação e reeducação” mesmo antes do fim do processo. Frequentar esse tipo de grupo não isenta os supostos agressores de responder a seus processos, mas a assiduidade é considerada pelos juízes na hora de bater o martelo e determinar as penas. A presença de mulheres é proibida nas sessões, e eles devem ir a no mínimo 16 encontros.

A lei prevê também, para a efetiva realização de programas como esse, a criação de “centros de educação e de reabilitação para os agressores” por todos os entes federativos, conforme o artigo 35. A realidade, porém, é que, em todo o país, existem pouquíssimos espaços assim.

Aos poucos, as cadeiras vão sendo preenchidas por homens bem diferentes uns dos outros. Nas seis horas que passei na salinha durante os três encontros, quebrei todos os meus preconceitos. Esperava encontrar monstros agressores, sádicos contumazes, malfeitores violentos próximos ao “estereótipo Datena”. Encontrei homens constrangedoramente comuns, uma amostra masculina fidedigna de toda a pirâmide social brasileira como raramente vi. O “homem brasileiro” estava ali em todas as suas nuances. (…)

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Rotinas ginecológicas? Mulheres, tomem as rédeas de seus corpos e sua saúde!

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Muitas das rotinas às quais as mulheres submetem-se “docilmente” todos os anos são desnecessárias. A medicina, e em especial a ginecologia, foi muito hábil em determinar uma série de supostos desvios na saúde das mulheres, que “precisam” ser insistentemente verificados e que, de certa forma, servem para justificar nossa posição na sociedade. Somos mantidas assim, reféns de consultas, exames e medicações, muitas vezes prejudiciais.

É comum que mulheres comecem uma consulta assim:  “estou até envergonhada, faz muito tempo que não consulto uma ginecologista”. “Quanto tempo?” Pergunto eu. “Dois anos”.

Costumo explicar que, para uma mulher que consulte um ginecologista “de convênio” (como dizem as pacientes), com quem a consulta “não dá tempo nem de esquentar a cadeira” (como afirmam), já que “atende em 10 minutos”, com quem elas não conseguem “fazer sequer uma pergunta”, ou mesmo dizer que fazem sexo com outras mulheres, e ainda assim, saem com “amostras grátis” de anticoncepcional e uma “pilha de exames”…pode ser uma sorte ausentar-se por dois anos do ginecologista.

A consulta médica deveria constituir-se em lugar seguro para o diálogo respeitoso, informações, exame físico e quando necessários, exames complementares. Mas a mercantilização da saúde, a confiança irrestrita na tecnologia, a formação médica inadequada, o modelo de saúde com foco em especialistas, e a ideia de que o corpo feminino é cheio de defeitos que precisam ser corrigidos, faz com que a consulta não seja centrada nas mulheres e sim em supostas patologias que precisam a todo custo (caríssimo aliás) ser prevenidas ou remediadas.

Assim, uma menina jovem que acabou de menstruar pela primeira vez, e que por isso ainda tem ciclos irregulares, não sai de uma consulta sem uma pílula “para regular”. Depois, aos 15 ou 16 anos, quando precisar de contracepção, não será mais preciso discutir esse assunto que tanto tempo pode tomar de uma consulta. E então, “sem perceber”, as mulheres estão tomando pílula há 20 anos.

O papanicolau ou preventivo de colo de útero não precisa ser feito todos os anos. Se uma mulher tem dois exames consecutivos negativos, pode coletar o próximo três anos depois, em alguns lugares a recomendação é cinco anos depois. Mais importante é saber que evitar tabagismo e usar camisinha nas relações com homens também são fatores que protegem contra câncer de colo. Infelizmente, são as mulheres mais desfavorecidas socialmente, com dificuldade de acesso ao sistema de saúde que terão câncer de colo. Diretrizes para o rastreamento do câncer de colo de útero (aqui você pode acessar como são as orientações de rastreio e também o que deve ser feito diante de exames alterados)

Mulheres que fazem sexo com mulheres também precisam coletar papanicolau. Mulheres na menopausa que estão com a vagina ressecada, devem primeiro fazer um ciclo de estrogênio tópico para somente depois coletar o papanicolau, pois a coleta com a vagina muito ressecada pode levar a resultados falso-positivos.

A colposcopia, exame em que se observa o colo do útero com uma lente de aumento, para que se possa biopsiar lesões suspeitas, só deveria ser feita caso o resultado do papanicolau viesse alterado. Ela complementa o papanicolau. Solicitar os dois exames juntos é uma prática que pode levar a biópsias de colo dolorosas, preocupação e temor desnecessariamente.

Algumas mulheres acham legal ter a oportunidade de ver o colo do útero na “televisão” da colposcopia. Mas isso é possível com um simples espelho na própria mesa de exames. Que aliás, não precisa ter perneiras. Uma maca larga pode muito facilmente possibilitar que a mulher acomode-se. Outra prática que pode tornar o exame ginecológico menos traumatizante e simbolicamente empoderador é solicitar inserir o espéculo você mesma. Ver o próprio colo, seu aspecto, a rugosidade e secreção vaginal pode ser muito interessante quando o(a) profissional está disposto(a) a orientar o seu olhar para coisas importantes de se observar. Favorece o cuidado de si.

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Oficina Fique Amiga Dela (2013) coordenada por Simone Diniz (Foto Ana Luisa Lacerda)

 

É também cada vez mais comum entre ginecologistas, sem que haja qualquer alteração no exame físico (e segundo muitas mulheres, sem sequer fazê-lo…) a prática de solicitar na consulta de rotina o combo: papanicolau, colposcopia e captura híbrida para HPV. Não recebi uma ou duas pacientes preocupadas porque “tinham HPV”… foram dezenas somente este ano. Traziam papanicolau e colposcopia normais e uma captura híbrida (exame de DNA da secreção vaginal) demonstrando serem portadoras de HPV de baixo risco.

Sim, estima-se que 40 – 50% das mulheres tenham HPV em sua flora. Isso não é um problema. Na maioria das vezes vamos conseguir lidar com a infecção. Mas em situações de estresse, baixa imunológica ou quando a mulher fuma e/ou usa pílula anticoncepcional há maior risco desse HPV causar alterações celulares (vistas só ao microscópio) ou verrugas genitais. A “captura híbrida de HPV” só deveria ser solicitada se surge alguma alteração e/ou a mulher tem comprometimento imunológico (HIV por exemplo) e é por isso importante descobrirmos se o subtipo do vírus é mais grave (aqueles que estão implicados no câncer de colo).

Algumas diretrizes  tem proposto uma co-testagem (papanicolau + teste para HPV) para mulheres entre 30-65 anos que desejam alargar o tempo entre um rastreio e o próximo para 5 anosScreening for cervical cancer: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Mas essa recomendação rapidamente espalhou-se como pólvora e um tanto distorcida: tem sido solicitada para todas as mulheres, todos os anos, e sem que sejam informadas sobre o risco e preocupações de um diagnóstico virtual de ser portadora de um HPV de alto risco (!)…Então ( e esse parágrafo foi adicionado em resposta aos colegas que questionaram a questão da testagem para HPV no texto), por favor, leiam as recomendações na íntegra. Por hora, as diretrizes brasileiras, pactuadas por especialistas da área são as disponibilizadas lá em cima. E testagem para HPV não faz parte do rotina.

Vacinar-se contra HPV também não protege a mulher contra o câncer de colo. Não há nenhum estudo que mostre diminuição de câncer em meninas vacinadas. Há somente uma suposição de que isso aconteça porque lesões intermediárias (NIC II e NICIII) diminuem (pouco) com a vacinação. Além dos mais, deve-se levar em conta os inúmeros casos divulgados de reações adversas à vacina. Questão que, aliás, não tem merecido a devida atenção do governo brasileiro. Asociacion de afectadas por la vacuna de papiloma

Quanto aos exames de imagem, nem o ultrassom transvaginal, nem o ultrassom de mamas devem ser realizados como rotina em pacientes sem queixa ou alteração no exame físico. Ultrassons transvaginais realizados rotineiramente (em mulheres sem queixa e sem massa palpável) não diminuem a mortalidade por câncer de ovário mas aumentam a retirada de ovários sem que haja realmente necessidade (cistos funcionais e tumores benignos são comuns e pode não ser necessário retirá-los). Final evidence review ovarian cancer 

O mesmo vale para o ultrassom de mamas. Se não há nódulo palpável, retração ou outras alterações, uma paciente jovem não deveria ser submetida a este exame rotineiramente. Mulheres sem história familiar de câncer de mama só precisariam fazer exame a partir dos 50 anos (com uma mamografia), sendo esse tema ainda bastante controverso.

E os check-ups laboratoriais? Se está corada, hemograma pra quê? Não tem risco cardiovascular (hipertensão, tabagista, história familiar) esqueça seu colesterol (mas lembre que ele estará bom enquanto você se alimentar bem, com pouca proteína animal e praticar atividade física).

É isso. Infelizmente, chegamos no ponto em que vamos ter que dialogar essas questões com nossos médicos. É para que esse exame doutor(a)? Quais riscos ele pode trazer? Quais benefícios?

Médicos passaram a acreditar que pacientes só ficam “satisfeitas” se saem das consultas portando pedidos de exame. É certo também que muitas pacientes passaram a acreditar que muitos desses exames eram necessários e começaram a solicitá-los. Mas duvido que com boa conversa, e recebendo informações e orientações importantes, as mulheres queiram continuar correndo os riscos que correm atualmente com a excessiva medicalização de suas vidas.

Uma dica para quem quer um atendimento mais comprometido com saúde e menos comprometido com o lucro: visite seu centro de saúde. Marque uma consulta com a enfermagem ou médico de família. Você corre menos risco (mas não completamente) de ter exames desnecessários solicitados no sistema público. Aproveite para conhecê-lo com os próprios olhos e não com os olhos da mídia que todos os dias tenta desqualificar o SUS. Ele só vai melhorar se o defendermos.

PS: Esse texto não defende que as mulheres deixem de procurar médicos ou serviços de saúde, mas sim que questionem e passem a demandar uma tomada de decisão conjunta sobre questões que afetam sua saúde.

Halana Faria

Mais em: https://casadeamaterasu.wordpress.com

Prevenção quaternária: o que é e a relação com o feminismo

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Profilaxia tem como base uma combinação de três medicamentos antirretrovirais

Vivemos em uma sociedade hipermedicalizada, não só em termos de quantidade de remédios que tomamos, mas no que diz respeito à alienação do próprio corpo e dos próprios processos de adoecer e de definir o que é saúde para si. Historicamente o médico passou a ocupar o lugar daquele que diz ao indivíduo o que ele tem e o que deve fazer para ser mais saudável, especificamente para as mulheres, cujo corpo e processos naturais passaram a ser esquadrinhados e apontados como defeituosos. Em que isso implica? Em intervenções médicas, cada vez mais invasivas, tanto no plano do concreto, como no plano abstrato, do “se pensar” de certa forma, do “se saber” de tal ou tal jeito.

É verdade que a tecnologia e as descobertas cumprem papel importante na prevenção e diagnóstico precoce de doenças, diminuindo assim a mortalidade e morbidade. No entanto, isso não serve para todos os casos. Vem crescendo o número de achados e doenças que não deveriam ser diagnosticadas, pois seu tratamento aumenta o risco para a saúde, sem qualquer benefício para as pessoas. Essas intervenções desnecessárias acabam por diminuir a qualidade de vida e da saúde dos indivíduos, pois não deveriam ter sido descobertas em primeira instância. Frequentemente tais descobertas causam desconforto, dano ao próprio corpo e mente e excesso de intervenções sem qualquer benefício para a saúde.

Na maioria dos casos, os famosos “achados” são encontrados através de exames pedidos rotineira e desnecessariamente. Com a melhor das intenções, pensando que o exame é nosso aliado todas as vezes, solicitamos testes e mais testes para esquadrinhar o corpo alheio e depois nos vemos obrigados a lidar com o que encontramos.

A prevenção quaternária consiste em identificar as pessoas que estão em risco de serem sobrediagnosticadas e evitar que isso ocorra. Há algumas formas de se diminuir o sobredianóstico e o sobretratamento:

  • Solicitar exames de rastreamento que tenham evidência científica de que os benefícios superam os malefícios e de que o tratamento é benéfico após a descoberta de uma doença
  • Respeitar os intervalos propostos entre um exame e outro
  • Respeitar a idade a partir da qual devem ser pedidos
  • Orientar o exame clínico e o pedido de exames ao sintoma do paciente sem necessídade de examinar ou procurar informações quando não há queixa

Infelizmente, as mulheres e seus corpos têm sido submetidos a muitos exames desnecessários, com intervalos cada vez mais curtos entre eles e em mulheres cada vez mais jovens. Nosso objetivo é ajudar as mulheres a se libertarem desse processo, encontrando uma forma mais saudável de promover saúde, prevenir doenças e lidar com seus sintomas e seus corpos, sem correr o risco de serem negligentes.

Como isso pode ser feito em uma consulta?

O profissional de saúde deve deter o conhecimento de saber a probabilidade estatística daquela pessoa de ter determinada doença ou riscoc para tal e saber as evidências científicas que residem na aplicação de determinado teste ou tratamento. Esse conhecimento somado ao compartilhamento dessas informações, propicia que a pessoa que está sendo consultada possa tomar uma decisão sabendo seus reais riscos e benefícios com a investigação e o tratamento e possa fazer uma escolha sobre o que acha melhor para si a partir daí. Esse processo deve ser construído em conjunto, respeitando as limitações e incertezas do profissional, do paciente e dos testes envolvidos.