Prevenção quaternária: o que é e a relação com o feminismo

Rotinas ginecológicas? Mulheres, tomem as rédeas de seus corpos e sua saúde!
Maio 28, 2016

Vivemos em uma sociedade hipermedicalizada, não só em termos de quantidade de remédios que tomamos, mas no que diz respeito à alienação do próprio corpo e dos próprios processos de adoecer e de definir o que é saúde para si. Historicamente o médico passou a ocupar o lugar daquele que diz ao indivíduo o que ele tem e o que deve fazer para ser mais saudável, especificamente para as mulheres, cujo corpo e processos naturais passaram a ser esquadrinhados e apontados como defeituosos. Em que isso implica? Em intervenções médicas, cada vez mais invasivas, tanto no plano do concreto, como no plano abstrato, do “se pensar” de certa forma, do “se saber” de tal ou tal jeito.

É verdade que a tecnologia e as descobertas cumprem papel importante na prevenção e diagnóstico precoce de doenças, diminuindo assim a mortalidade e morbidade. No entanto, isso não serve para todos os casos. Vem crescendo o número de achados e doenças que não deveriam ser diagnosticadas, pois seu tratamento aumenta o risco para a saúde, sem qualquer benefício para as pessoas. Essas intervenções desnecessárias acabam por diminuir a qualidade de vida e da saúde dos indivíduos, pois não deveriam ter sido descobertas em primeira instância. Frequentemente tais descobertas causam desconforto, dano ao próprio corpo e mente e excesso de intervenções sem qualquer benefício para a saúde.

Na maioria dos casos, os famosos “achados” são encontrados através de exames pedidos rotineira e desnecessariamente. Com a melhor das intenções, pensando que o exame é nosso aliado todas as vezes, solicitamos testes e mais testes para esquadrinhar o corpo alheio e depois nos vemos obrigados a lidar com o que encontramos.

A prevenção quaternária consiste em identificar as pessoas que estão em risco de serem sobrediagnosticadas e evitar que isso ocorra. Há algumas formas de se diminuir o sobredianóstico e o sobretratamento:

  • Solicitar exames de rastreamento que tenham evidência científica de que os benefícios superam os malefícios e de que o tratamento é benéfico após a descoberta de uma doença
  • Respeitar os intervalos propostos entre um exame e outro
  • Respeitar a idade a partir da qual devem ser pedidos
  • Orientar o exame clínico e o pedido de exames ao sintoma do paciente sem necessídade de examinar ou procurar informações quando não há queixa

Infelizmente, as mulheres e seus corpos têm sido submetidos a muitos exames desnecessários, com intervalos cada vez mais curtos entre eles e em mulheres cada vez mais jovens. Nosso objetivo é ajudar as mulheres a se libertarem desse processo, encontrando uma forma mais saudável de promover saúde, prevenir doenças e lidar com seus sintomas e seus corpos, sem correr o risco de serem negligentes.

Como isso pode ser feito em uma consulta?

O profissional de saúde deve deter o conhecimento de saber a probabilidade estatística daquela pessoa de ter determinada doença ou riscoc para tal e saber as evidências científicas que residem na aplicação de determinado teste ou tratamento. Esse conhecimento somado ao compartilhamento dessas informações, propicia que a pessoa que está sendo consultada possa tomar uma decisão sabendo seus reais riscos e benefícios com a investigação e o tratamento e possa fazer uma escolha sobre o que acha melhor para si a partir daí. Esse processo deve ser construído em conjunto, respeitando as limitações e incertezas do profissional, do paciente e dos testes envolvidos.

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