História do Coletivo

O Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde surgiu em 1981 em São Paulo, dentro do contexto da criação de grupos de mulheres lutando pela saúde e pelos direitos reprodutivos e sexuais, tendo como fundadoras Elisabeth Souza Lobo, Maria José de Oliveira Araújo e Maria Tereza Verardo. A proposta inaugural era resgatar a saúde como uma questão de direito das mulheres, além da compreensão de que as questões pessoais são questões políticas.

Os primeiros trabalhos do Coletivo Feminista realizaram-se em sindicatos, associações de bairro e outras entidades situadas na periferia e em municípios vizinhos: Grajaú, Carapicuíba, Santa Isabel, Guarulhos, entre outros. Os cursos de sensibilização para questões da saúde da mulher estavam dirigidos para multiplicadores.

O objetivo principal dos cursos era estimular a reflexão das mulheres sobre o corpo, a saúde, a contracepção e a maternidade para que assim melhorassem suas condições de vida, e passassem a participar da vida da comunidade e dos espaços públicos.

O Coletivo Feminista, ao receber várias solicitações para a criação de cursos, decidiu desenvolver um trabalho de formação de mulheres que se tornassem aptas a multiplicar a proposta. Como resultado desses cursos, o Coletivo Feminista publicou o caderno O Prazer é Revolucionário, e elaborou outros materiais educativos referentes aos temas trabalhados.

Ambulatório

Ao longo do processo de maturação do Coletivo Feminista, suas integrantes perceberam a necessidade de sistematizar as experiências e criar um espaço em que a teoria e as reflexões pudessem ser aplicadas. Como inspiração para a criação do ambulatório, havia também a experiência vivida por Maria José de Oliveira Araújo no Dispensaire des Femmes, em Genebra. Ao voltar ao Brasil, ela percebeu que o movimento de mulheres pela saúde estava maduro para criar um ambulatório, que colocasse novos paradigmas de atendimento às mulheres.

O processo de formação e de capacitação do ambulatório começou entre as próprias participantes, desde exercícios práticos até discussões acerca das questões que envolviam a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Essas discussões foram amplas e contaram com pessoas de várias áreas, isto é, profissionais de saúde, mulheres da universidade, mulheres dos movimentos de base, intelectuais etc. O ambulatório foi aberto em 1984.

Parcerias

O Coletivo Feminista tem realizado importantes parcerias em São Paulo e em vários outros estados brasileiros. Uma parceria muito importante é com a universidade — onde o caminho é de ida e de volta, ou seja, de alimentação recíproca. Dois exemplos concretos de parceria são uma pesquisa realizada com o Cemicamp, sobre o uso do diafragma, e a parceria realizada com o Departamento de Medicina Preventiva da USP, em torno da capacitação de profissionais de saúde para o atendimento à mulher em situação de violência sexual e doméstica.

O Coletivo Feminista também prestou, consultorias para várias prefeituras como as de Porto Alegre, Goiânia, São Paulo, Santos, São José dos Campos e Cuiabá.

A história do Coletivo é uma história política

O Coletivo Feminista não tem, nem nunca teve, intenção de substituir o Estado no atendimento às mulheres, mesmo porque isso seria impossível. A proposta é oferecer um novo modelo de atendimento.

Sua principal meta é que as usuárias que passam pelos seus serviços, sintam-se satisfeitas em suas demandas. Que o modelo de atenção à saúde da mulher, criado por nós, possa ser aproveitado em outros espaços, e que sejam os mais amplos e diversos possíveis.

Nosso modelo prova que é possível romper com a relação hierarquizada, com a forma biologicista e individualista de enxergar a mulher dentro da consulta ginecológica. Portanto, é um modelo político, pois se insere em um contexto mais amplo. Ele propõem uma intervenção positiva e propositiva nas políticas públicas de saúde, direitos reprodutivos e sexuais da mulher. É político também ao criar novos conceitos e fomentar novas tecnologias.

Pesquisas do Coletico

Quando iniciamos o trabalho no Coletivo, a proposta era a de formar mulheres não-trabalhadoras de saúde para atender mulheres de uma perspectiva feminista. Fizemos uma primeira etapa de formação, e o ambulatório era o eixo do trabalho. No decorrer dos anos, novas tarefas foram se incorporando, como a formação dos recursos humanos, entre elas a pesquisa e o ativismo nas redes sociais.

O Coletivo foi cada vez mais me envolvendo com a pesquisa. Embora essa não fosse sua intenção original, a pesquisa mostrou-se ser uma de suas vocações. Nesses anos do trabalho com saúde reprodutiva, várias temáticas vão se acrescentando ao trabalho, e assim se tornando objeto da assistência e de investigação.

Um deles foi o da contracepção e da busca por oferecer opções contraceptivas mais amplas para suas usuárias, através do atendimento individual, da prioridade aos métodos de barreira e sob o controle da mulher, do atendimento em grupo e dos treinamentos oferecidos no contexto do PAISM. Tivemos a oportunidade de pesquisar,na maioria das vezes em redes de parcerias muito enriquecedoras.

Entre elas as pesquisas sobre “Aborto – A Outra Versão do Crime” (vivência das mulheres com gravidez indesejada em busca de um aborto seguro), sobre “A Eficácia e Aceitabilidade do Diafragma no Contexto Brasileiro”, sobre “Saúde e Direitos Reprodutivos” em uma rede transcultural de pesquisa, o IRRRAG (Grupo de Pesquisa e Ação em Direitos Reprodutivos, da sigla em inglês); sobre masculinidade em “Homens, Sexualidade e a Construção da Pessoa”, também na rede de pesquisa do IRRRAG; sobre Violência de gênero na família e nas instituições de saúde (em parceria com o Departamento de Medicina Preventiva da FM-USP); sobre AIDS e saúde reprodutiva com vários parceiros e com o Ministério da Saúde, entre outras.

Também estudamos as grandes mudanças em nossa demanda de usuárias e no perfil de uso de métodos, em especial no contexto da epidemia de DSTs/AIDS, e das perspectivas, limites e possibilidades trazidas por este novo contexto e pelos novos métodos, para o milênio que se iniciou. E sobre como as relações de gênero estão envolvidas na capacidade de homens e mulheres de cuidarem de sua saúde sexual e de se protegerem das DSTs e da AIDS.

Outro tema foi o da violência contra as mulheres. Desde o início do trabalho no Ambulatório do Coletivo, o problema da violência – em todas as suas formas, das ameaças de espancamento ao abuso sexual incestuoso – já era um problema reconhecido. Esse tema se desdobra em todo um projeto de pesquisa, ação, formação, criação de redes, que foram os projetos de Violência, Gênero e Direitos Humanos – Novas questões para o campo da saúde, apoiado Fundação FORD. O trabalho foi uma fértil parceria entre o CFSS e o Departamento de Medicina Preventiva – (FM-USP), em especial com a professora Lilia Schraiber e com Ana Flávia P. L. d’Oliveira. Atualmente conduzimos a pesquisa “25 anos de respostas brasileiras em violência contra a mulher”, apoiado pela Fundação Ford.

Na trajetória do Coletivo Feminista Sexualidade Saúde, um dos trabalhos mais importantes foi o apoio à maternidade, gravidez e parto saudáveis e prazerosas, através da assistência individual e em grupo das gestantes e seus parceiros no serviço, e pela participação do Coletivo na luta pela mudança das políticas com relação à maternidade e pela humanização da assistência. Um dado importante é a própria mudança na reflexão sobre a maternidade entre nós desde então.