Relato da Roda: ansiedade e depressão em mulheres

A roda de conversa sobre ansiedade e depressão em mulheres, ocorrida no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde em 08/06/2016 foi super interessante, e levantou vários pontos para discussão, sintetizados abaixo.
Esses pontos serão retomados na próxima roda sobre o tema, prevista para o dia 10 de agosto às 18 hs, a partir da apresentação da experiência da Aline com grupo de mulheres usuárias de um CAPS e dos relatos de experiências pessoais das participantes que desejarem contar a sua história ou compartilhar as suas dúvidas.

Pontapés iniciais:

  1. Na história do movimento feminista pela saúde das mulheres os avanços mais marcantes foram realizados na área de Saúde sexual e reprodutiva. As contribuições de várias feministas envolvidas com o tema na década de 70 não foram seguidas ou aprofundadas;
  2. Mesmo a questão da violência, que hoje tem destaque na agenda feminista e é reconhecidamente um fator de risco para a saúde mental das mulheres não tem propiciado maiores reflexões específicas;
  3. Os blogs e sites que tratam do tema em geral apontam a questão hormonal e as pressões sociais sobre as mulheres como os principais motivos para que os quadros de ansiedade e depressão nestes sejam duas a três vezes mais frequentes do que em homens. Este tipo de olhar se torna aprisionante, pois não deixa alternativas.
  4. Situar as mulheres como vítimas (do patriarcado, da violência) é não reconhecer a sua capacidade de agir e buscar alternativas. Ao mesmo tempo, considerá-la responsável (pelas agressões que sofre, pelas escolhas amorosas, pelo seu sofrimento) é não reconhecer as consequências do machismo na produção da vulnerabilidade das mulheres.
  1. Do ponto de vista das práticas terapêuticas, não basta levar as mulheres a reconhecerem como as opressões do patriarcado modelam a sua subjetividade. Os conflitos emocionais persistem, mesmo que se reconheçam suas origens histórico- políticas.
  2. Não esquecer que o lugar de “depressiva” ou doente é um lugar que pode ser importante para a mulher por produzir visibilidade e ações cuidado dentro de sua rede. A desconstrução deste lugar exige a construção de um outro e o entendimento de que a transição entre um lugar identitário de sofrimento e dependência para um outro de maior autonomia exige tempo e esforço.
  3. Utilizar de estratégias feministas na atenção à saúde mental de modo que não seja via uma relação de poder – relação terapeuta x paciente – uma vez que há o risco de reproduzir o lugar de vítima/frágil que essa mulher já vivencia em sua estrutura familiar e social.
  4. As instituições tendem a reproduzir preconceitos contra as mulheres, em especial as mais vulneráveis, fragilizando ainda mais a sua autoestima. Perceber a nossa dificuldade em romper estas muralhas também nos fragiliza, criando por vezes a sensação de impotência.

O desenrolar da conversa: sugestões e questionamentos

  1. A utilização de técnicas de comunicação não violenta pode ser um bom instrumento para facilitar para as mulheres expressar seus sentimentos e entender melhor seus conflitos e ambivalências?;

1.1 Comunicação Não-Violenta precisa ser aprendida, porque não é comum no cotidiano, para não ser confundida com “pacificação”, que muitas vezes significa o mero silenciamento de conflitos e de sentimentos “inaceitáveis” (raiva, medo, vergonha, inveja etc);

  1. A criação e fortalecimento de redes de solidariedade entre mulheres, facilitada pela internet, tem sido um instrumento importante para obtenção de apoio e reconhecimento, facilitando o maneja das situações de tensão e estresse sem cair da malha do diagnóstico psiquiátrico e uso de medicação.
  2. O que poderia ser uma abordagem feminista em saúde mental? Seria suficiente reconhecer este lugar intermediário e ambivalente de vítima e agente, e buscar identificar os recursos internos e externos de cada uma para enfrentar resta ambiguidade?
  3. Como se pode aferir a qualidade de uma intervenção feminista em saúde mental, considerando que muitas mulheres vivem relações amorosas e conjugais heterossexuais, em que os conflitos derivados das desigualdades de gênero estão presentes, independente do grau de consciência da cada membro do casal sobre esta dinâmica social? E que, além disso, muitas mulheres desejam ou vivenciam a maternidade como espaço de autorealização, mesmo reconhecendo que esta idealização da maternidade é um dos pilares mais fortes da construção social do feminino?