| Faltam estatísticas De
um modo geral, há poucos dados disponíveis sobre os diversos tipos
de violência de gênero. Somente nas delegacias de polícia existe
a rotina de registro sistemático de violência denunciada. As
mulheres falam que a agressão psicológica é mais dolorida
e sofrida que a física. Além disso, a violência de gênero
(doméstica ou sexual), se não interrompida a tempo, pode levar ao
assassinato de mulheres (ou ao femicídio , que é o homicídio
praticado contra a mulher, em situação de violência de gênero). Segundo
o "Relatório Mundial sobre Violência e Saúde" (Organização
Mundial da Saúde - OMS, Genebra, 2002), "estudos realizados na África
do Sul, na Austrália, no Canadá, nos Estados Unidos e em Israel
mostram que, das mulheres vítimas de assassinato, de 40 a 70% foram mortas
por seus maridos ou namorados, normalmente no contexto de um relacionamento de
abusos constantes". Esse fato contrasta totalmente com a situação
dos homens vítimas de assassinato. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas
4% dos homens assassinados entre 1976 e 1996, foram mortos por suas esposas, ex-esposas
ou namoradas. As conseqüências da violência de gênero são
diferentes para mulheres e homens, bem como as causas que levam as pessoas a praticá-la.
Segundo pesquisas apresentadas naquele Relatório da OMS, as mulheres
têm muito mais probabilidade de serem machucadas durante as agressões
ocorridas na violência de gênero e são alvos mais freqüentes
de lesões corporais graves. No Canadá, as mulheres em situação
de violência estão três vezes mais sujeitas a lesões,
e suas vidas se encontram cinco vezes mais ameaçadas do que as vítimas
masculinas. Denunciar não é nada fácil
Verifica-se
que nas situações em que ocorre a violência praticada por
mulheres é mais provável que ela seja usada como uma ação
de autodefesa. As mulheres em situação de violência
de gênero permanecem por longo tempo nesta condição. A pesquisa
da Fundação Perseu Abramo indica que as mulheres brasileiras que
sofreram violência evitam falar com outra pessoa sobre a agressão,
e não procuram ajuda junto às instituições. Quando
tocam no assunto, falam com a mãe, a irmã, ou uma amiga. É
a minoria que busca ajuda nas delegacias. A grande parte das mulheres separa e
volta várias vezes ao relacionamento conflituoso e violento antes de por
um fim definitivo à convivência com o parceiro agressor. Muitas vezes,
romper um relacionamento violento coloca as mulheres em situação
de extrema vulnerabilidade; muitas mulheres são assassinadas ao tentar
separar-se. A desigualdade estrutural entre homens e mulheres, os rígidos
e diferenciados papéis que ambos devem desempenhar, onde a idéia
de virilidade está associada a dominação e a de feminilidade
se vincula a estereótipos de submissão, docilidade, etc, servem
para fundamentar e consolidar relações violentas de gênero.
As conseqüências afetam a saúde não somente das pessoas
diretamente envolvidas mas se estendem à comunidade, às instituições
e aos serviços públicos. As mulheres que vivem com parceiros
violentos encontram dificuldades para cuidar de si próprias, procurar emprego,
estudar e desenvolver formas de viver com conforto e autonomia. Violência
faz mal à saúde
Os impactos da violência de gênero
na saúde vêm sendo denunciados com mais freqüência e se
apresentam nas formas de depressão, tentativas de suicídio, síndromes
de dor crônica, distúrbios psicossomáticos, lesões
físicas, distúrbios gastrointestinais e diversas conseqüências
na saúde reprodutiva - tanto a gravidez indesejada como o contágio
de infecções causadas por doenças sexualmente transmissíveis
-, assim como relações sexuais forçadas, etc, e é
apontado pela OMS (Relatório Mundial de Saúde, 2002) como um dos
fatores responsáveis pela mortalidade materna. Nos países
da África a violência contra a mulher tem sido responsável
pela crescente epidemia de AIDS entre as mulheres. O Relatório da OMS ainda
aponta como resultado físico mais comum da prática constante da
violência doméstica e sexual os chamados distúrbios funcionais,
distúrbios que freqüentemente não apresentam uma causa médica
identificável, tais como síndrome de dor crônica, fobias e
ansiedade, o que tornam as mulheres vítimas usuárias freqüentes
dos serviços de saúde. Em relação aos aspectos
econômicos, as mulheres em situação de violência perdem
com mais freqüência o emprego, têm mais dificuldades em negociar
aumentos salariais e promoção na carreira profissional. De acordo
com a pesquisa do BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, de cada cinco
dias trabalhados, as mulheres perdem um por causa da violência. São
inúmeros os prejuízos causados às crianças que de
um modo geral assistem as cenas violentas entre os pais, que podem ser também
diretamente afetadas e sofrem conseqüências emocionais, como ansiedade,
depressão, baixo rendimento escolar, baixa auto-estima, pesadelos, etc.
A OPAS/OMS (Organização Pan Americana de Saúde/Organização
Mundial de Saúde), afirma que "violência de gênero - incluindo
o estupro, a violência doméstica, a mutilação, o homicídio
e o abuso sexual - constitui um sério problema de saúde para a mulher
em âmbito mundial. Apesar da violência de gênero ser uma causa
significativa da morbi-mortalidade feminina, quase nunca é visualizada
como um tema para a saúde pública". Em julho de 1998, a revista
Veja publicou reportagem dizendo que, nos Estados Unidos, um terço das
internações de mulheres em unidades de emergência era em conseqüência
da violência doméstica. Doenças sexualmente transmissíveis,
doenças pélvicas inflamatórias, gravidez indesejada, aborto
espontâneo, dores de cabeça, doenças gastrointestinais, hipertensão
e outras doenças crônicas, além de comportamentos danosos
à saúde, como fazer sexo inseguro, abusar de drogas e do álcool
têm uma incidência bastante alta nas pessoas que vivem em situação
de violência doméstica. Surgem ainda transtornos psíquicos
como depressão, ansiedade e suicídio (Heise in Cadernos de Saúde
Pública, Rio de Janeiro, 1994, p.146-55). Entendemos, no entanto,
que não basta garantir o atendimento à saúde. É necessário
o resgate da cidadania e dos direitos humanos das mulheres tais como o reconhecimento
de seus direitos sociais, econômicos, civis e políticos. A
pesquisa que realizamos por meio dos grupos focais junto às mulheres atendidas
no Hospital Pérola Byington, reforçou nossos argumentos junto às
autoridades municipais, que aceitaram nossa proposta de criar lei obrigando o
serviço de saúde do município a investigar e registrar os
dados da violência contra a mulher. Assim foi criada a lei 13.150/2001,
na cidade de São Paulo. |